Enocuriosos… Viñas de Chile: Concha y Toro

Idas e Vinhas
Com um interesse cada vez maior em fazer passeios e viagens
onde pudéssemos incluir mais experiências e aprendizado no mundo dos vinhos,
pensamos que seria adequado fazer uma travessia um pouco maior e buscar contato
com uma boa referência. Precisávamos escolher um destino que fosse próximo ao
Brasil (por causa do preço das passagens aéreas), com bons produtores e que
tivesse inglês ou espanhol como língua nativa. Com esses atributos ficou fácil
escolher: Chile.

Nossa primeira visita ao Chile aconteceu em setembro de
2014. Ao todo foram nove dias de viagem com planos de muitos passeios
turísticos e a intenção de visitar uma ou outra vinícola. Apesar do nosso crescente
interesse no assunto, o foco realmente não era o vinho tão somente, mas sim
conhecer a “multifacetada” terra natal de Pablo Neruda, aproveitando, claro,
para incluir visitas a algumas vinícolas no nosso roteiro, sempre que possível.
Mas acaba que, para surpresa nossa, visitamos bem mais vinícolas do que
imaginávamos inicialmente e… adoramos! No saldo foram 3 produtores nos
arredores de Santiago e outros 3 em Santa Cruz. Na sequência: Concha y Toro,
Montes, Viu Manent, Casa Lapostolle, Cousino Macul e Undurraga. Falaremos de
todas elas em postagens adiante, mas agora contaremos como foi a nossa visita à
famosa Concha
y Toro
.
(Não. Não vamos falar aqui dos vinhos de supermercado a
preços acessíveis, nem da tão comentada lenda da bodega protegida pelo
“capiroto” ou algo assim. Vamos direto ao ponto: a visita.)
Já havíamos lido em alguns blogs que é muito simples e
viável ir de transporte público para a famosa vinícola, partindo do centro de
Santiago. Foi o que fizemos e, de fato, funciona. Pegamos o metrô na estación Santa Lucia e desembarcamos na estación Las Mercedes, onde tomamos um táxi (há um ponto bem na saída do
metrô e todos os taxistas ali estão acostumados a levar enocuriosos e enófilos
para a vinícola – é um trajeto bem simples, de 15 minutos apenas). Ao todo a
viagem durou 1 hora e o custo foi muito barato. Ainda porque, na saída do
metrô, vimos um casal de brasileiros muito simpáticos que
também estava indo para a vinícola e perguntamos se eles se incomodariam de “dividir”
um táxi conosco. Eles toparam de pronto.
Assim que chegamos à vinícola, fomos conduzidos à portaria
para os procedimentos “burocráticos” (confirmação do agendamento que havíamos
realizado, sem dificuldades, através do sítio virtual; realização do pagamento
e recebimento do adesivo de identificação do tour escolhido – no nosso caso, o “Marques de Casa Concha”, onde
degustaríamos quatro vinhos da linha de mesmo nome). Após esta etapa, nos foi
indicado o ponto inicial da visita guiada e descobrimos que o tour já havia começado (!) – embora
tenhamos nos apresentado com antecedência razoável e houvesse ainda uma fila de
pessoas realizando o pagamento na portaria (incluindo o casal que chegou
conosco). Nossa sugestão é: procure chegar com muita antecedência para não
vivenciar esta atitude…, digamos, deselegante por parte dos anfitriões…
Tivemos que correr bastante para não perder o grupo, que seguia caminhando pela
extensa propriedade.
O tour apresenta
roteiro bem organizado e começa na parte externa, em frente à antiga sede da
propriedade, outrora residência dos fundadores da bodega.  A guia (muito simpática e à vontade) nos
apresentou também um pequeno quarto de terreno onde estão plantados exemplares
de todas as cepas cultivadas pela casa – a título de demonstração. Como
estávamos no fim do inverno, as videiras estavam adormecidas e não foi possível
identificar qualquer diferença entre elas e tampouco admirar a beleza dos
parreirais, que se espalhavam até perder de vista. Foi nesse ambiente que a
guia nos contou também a história da uva Carménère
– a cepa considerada símbolo do Chile.
Idas e Vinhas
Parreiras na dormência do inverno.
A Carménère é uma
cepa europeia que, atacada por uma praga – a filoxera, chegou a ser considerada extinta em
todo o mundo. Até que… percebeu-se que os vinhos feitos no Chile a partir da
uva merlot eram muito “estranhos”.
Análises laboratoriais revelaram que, entre as amostras das uvas utilizadas
para aquele vinho, havia exemplares da “extinta” cepa trazida anos antes por
imigrantes que não sabiam o que tinham em mãos. Hoje o Chile é o único país que
cultiva a carménère “pura”, sem o
emprego de técnicas de enxertia, pois está protegido (pela Cordilheira dos
Andes e pelo Oceano Pacífico) da praga que assola a espécie no resto do mundo.
Depois das apresentações na área externa, das histórias
contadas e de um vinho degustado ali fora mesmo, nossa guia – mais simpática e
mais à vontade a cada vinho degustado (que ela também bebia com indisfarçável
satisfação) nos convidou então a entrar para a cava de envelhecimento e guarda
em cujas paredes foi projetado um filme (animação) ilustrando a lenda do Casillero del Diablo. Ao todo, nesse trajeto, são degustados 3 vinhos,
incluindo o Gravas del Maipo, um dos ícones da
casa (e bem caro). 
Todo esse roteiro até aqui atendia tanto ao tour básico como ao tour “top”. Nossa (já alegre, após a terceira prova de vinho)
anfitriã, então, separou os grupos e nos conduziu até uma grande sala onde
seria realizada a segunda etapa de nosso passeio, agora sim: a degustação
orientada “Marques de Casa Concha”.
Neste momento trocamos a guia por uma enóloga que orientou
a degustação na qual foram servidos quatro exemplares da linha “Marques…”: Chardonnay, Merlot, Syrah e Cabernet Sauvignon (seguindo a já
tradicional ordem de “complexidade” dos vinhos: sempre começando pelos mais
“leves” e terminando pelos mais “encorpados”). Os vinhos foram acompanhados de
queijos igualmente ordenados de forma a harmonizar (ou, como se diz no Chile,
“maridar”) com cada um deles. Durante esta parte da visita foram dadas algumas
informações básicas (mas importantes para enófilos iniciantes – ou enocuriosos
como nós) a respeito de coloração, aromas e sensações na boca, ajudando a
compreender melhor e a expandir nossas percepções a cada gole.
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As taças saíram cortadas mas não foi efeito do vinho!

Gostamos dos vinhos servidos, especialmente o Chardonnay e o Syrah, e apreciamos muito os “maridajes” com os queijos oferecidos
(cabra, mantecoso, brie e pecorino – estavam
deliciosos e “casaram” muito bem).
Quando a enóloga terminou de fazer todas as considerações
sobre o último vinho e o queijo sugerido, pediu a todos que se retirassem da
sala, alegando que haveria outro grupo para ser atendido ali, e informou que
poderíamos sair com a tábua de queijos e apenas com a taça de vidro em que foi
servida a água (as outras eram de cristal). Para que cada um terminasse de
beber o que restava em suas taças, foi necessário escolher qual o vinho
preferido e verter o conteúdo para a taça regalo
– foi preciso beber a água antes. Muito pitoresco, para não dizer
constrangedor, foi ver todos os pagantes do tour ($$$) iniciarem um “vira-vira”
e transbordo de taças, já em pé, e saírem “garbosos” com suas tábuas de queijo
e a taça com a “sobra” escolhida nas mãos. Ah, sim, fomos orientados pela
enóloga a utilizar as mesas do pátio para finalizar o que não pudemos fazer
conforme o esperado. Nova surpresa então: assim que nos sentamos à mesa, um
garçom veio nos trazer o cardápio e anotar o nosso pedido (!?). Explicamos o
que estava acontecendo, que estávamos ali por orientação da enóloga, que
estávamos terminando nossa degustação do tour
etc…, e ele nos informou que aquele espaço era destinado apenas aos clientes
do restaurante mas que poderíamos utilizar as mesas por um breve instante…
Saímos de clientes premium a
solicitantes de um favor.
Após a visita/degustação (e os incidentes desconcertantes)
e ao terminarmos nossa taça de vinho e nossa tábua de queijos na mesa do pátio,
nos restava ir embora. E a saída tem acesso, naturalmente, pela loja. Tínhamos
direito a 10% de desconto por termos pago a degustação, mas descobrimos, só
então, que esse desconto era aplicável apenas aos vinhos da linha Marques de
Casa Concha. Ficamos um pouco decepcionados, pois pretendíamos cometer umas
“ousadias”… 
Acabamos comprando duas garrafas dos vinhos que mais
apreciamos na degustação, o Chardonnay e o Syrah Marques de Casa Concha. Pagamos
um preço razoável, longe de ser uma “pechincha” (contrariando nossa expectativa)
já que estávamos comprando diretamente no produtor. Lojas especializadas em
Santiago praticam preços iguais e até menores para os mesmos produtos. Ficamos,
outra vez, surpresos…
É “mais
passeio” ou é “mais vinho”?
É “mais vinho”. A parte do passeio na área externa da
propriedade e a visita ao “casillero” (com o desenho animado sobre a lenda),
apesar de aprazível e da imensa simpatia da guia que nos conduziu, acrescentaram
pouco. A degustação em si, excetuando-se o final desconcertante, foi muito
proveitosa, prazerosa e valeu o montante pago. Na ocasião em que lá estivemos
não era possível fazer apenas a degustação mas, como é comum em outras
vinícolas, talvez a Concha y Toro também já esteja permitindo o acesso apenas
para fazer provas de vinhos. Não deixe de se informar a respeito quando for
agendar pela internet.
Enocuriosos.
* Fotografias de Dagô e Simone.