Enocuriosos… Viñas de Chile – Bodegas RE

Idas e Vinhas

Saímos da Emiliana felizes da
vida e com mais duas missões a cumprir. Nosso primeiro objetivo?
Casa Botha – um restaurante italiano em pleno Valle
de Casablanca
. O plano era bem simples – seguir pela Ruta 68 à pé até o destino. A execução não seria tão “suave” assim
– uma caminhada de 2,5 quilômetros.

Como não reservamos hora no restaurante e tínhamos tempo de
sobra até o horário da visita na vinícola, poderíamos seguir pela estrada com
tranquilidade e, por isso, tomamos o caminho de saída da Emiliana por entre os vinhedos. Antes que tivéssemos saído da
propriedade, percebemos que um carro estava nos seguindo. Não era um engano –
ele realmente estava em nosso encalço. Era um taxista. Ele queria saber para
onde íamos, pois estava retornando sem passageiros para Valparaíso (a 50
quilômetros de distância) e gostaria de aproveitar para garimpar alguns pesos
chilenos… Agradecemos mas aquele não era o nosso plano. Melhor seguir
caminhando. O taxista era esperto e ofereceu carona grátis até o restaurante. Aceitamos,
sabendo que as “ofertas” não acabariam por ali. Durante a curta viagem o
taxista aproveitou para perguntar qual nosso destino subsequente…
Antes que saíssemos do carro, o taxista fez nova oferta.
Disse ele que estaria disposto a esperar que almoçássemos para nos levar a
nossa próxima parada, por um valor de “n” pesos por quilômetro rodado. A única
condição imposta é que ele não poderia esperar mais do que 45 minutos porque
tinha outro compromisso mais tarde e não poderia se atrasar. Como sabíamos que
nosso próximo percurso não poderia mesmo ser feito sem carro, topamos. Nosso almoço foi
uma correria, mas conseguimos manter o compromisso com o táxi e, o principal, a
comida estava maravilhosa.
O restaurante Casa
Botha
foi uma indicação dos proprietários da pousada La Mirage Parador – nosso local de pouso pelos próximos 2 dias. No
restaurante, encontramos um ambiente acolhedor e ricamente decorado (até um
pouco demasiado). O forte da casa é, além do cardápio de massas, uma carta de
vinhos gigantesca – praticamente todas as vinícolas de Casablanca estão
representadas no restaurante e todas as garrafas podem ser adquiridas não só
para consumo local (o dono do restaurante investe “pesado” para que o visitante
leve para casa o melhor e mais especial vinho da região – seja ele qual for).
De lá, seguimos para o nosso último compromisso do dia, que
seria na Bodegas RE.
Nossa expectativa para esta visita estava depositada na possibilidade
(e oportunidade) de provar vinhos produzidos em tinajas (ânforas) e também porque sabíamos que a proposta desta
vinícola é se arriscar na produção de blends pouco usuais. Para quem não sabe,
é importante destacar que a Bodegas RE
é a vinícola que o enólogo Pablo Morandé
criou com seu filho após vender sua participação na Viña Morandé. Todas as informações que encontramos sobre ele
durante nossa pesquisa na internet apontava para um mesmo perfil: um
profissional determinado, inovador, sem medo de arriscar, e que colecionava
sucessos e fracassos sem se que isso fosse suficiente para aplacar sua ânsia
pelo novo, por aquilo que ainda haveria de nascer (ou ser inventado). Bem… O
que mais seria necessário para estimular um par de Enocuriosos?
Chegamos à viña bem
antes do horário combinado (afinal, o taxista tomou conta de nossa agenda…) e
mesmo assim fomos muito bem recebidos e conseguimos antecipar o horário da
visita sem qualquer problema, pois a vinícola estava vazia. Ficamos muito
impressionados com a beleza da loja que expunha, além de vinhos e azeites,
diversos artigos de tecelagem e vestuário produzidos por artesãos do povoado.
Todo mobiliário e artigos de decoração seguem uma linha “armazém antigo”.
Nossa opção de visita foi o Tour Revelación que incluía a visita à parte dos vinhedos, balsamería, sala de licores e o salão de
barricas e ânforas, além, é claro, da degustação de 4 vinhos. Começamos o tour pelo lado externo da propriedade
mas não visitamos o vinhedo tal como esperado (não lembramos o motivo). Nossa
guia explicou que o projeto arquitetônico levou em consideração o movimento do
sol e as correntes de ar para criar um edifício que não necessitasse de
climatização artificial.
Em seguida adentramos em um pequeno galpão onde se encontrava uma
bateria de produção de vinagre balsâmico. A guia explicou como é o processo de
produção (o ciclo completo leva ao menos 12 anos para ser completado) e que eles
estavam reproduzindo um “ciclo encurtado” para que pudesse produzir acetos ao final de 5 anos. Obs.:
Simplificando muito o conceito, é possível dizer que a produção de aceto se dá a partir do mosto da uva cozido
que é transferido do barril maior para o menor ao longo dos anos. Em cada
período de descanso o líquido perde volume, torna-se mais concentrado e adquire
um pouco de sabor da madeira da qual é feita o barril. Por isso o segredo é a
ação do tempo, a variedade das madeiras utilizadas em cada pequeno barril e o
controle do ambiente para que a produção não se deteriore. Encontramos um
pequeno modelo de produção neste link. Para nós foi uma grande
surpresa porque nunca sequer imaginamos como era feito um aceto.
Idas e Vinhas
Na sequência, entramos na bodega propriamente dita, um
andar abaixo da loja.
Idas e Vinhas
Logo na entrada nos deparamos com uma sequência de tinajas (todas cheias de uvas):
Idas e Vinhas
Neste momento a guia explicou um pouco como é
realizado o processo de produção do vinho em ânforas, mas não deu o devido
destaque e detalhamento para atender a nossa curiosidade. Seguimos conhecendo o
espaço da bodega e notamos que, além de não haver tanques de aço inoxidável, a
vinícola se utilizava de estranhos tonéis em forma de moringa (ou seriam tinajas)? O que nos foi informado é que
estes estranhos recipientes são feitos de cimento (e não de argila como a cor
poderia levar a crer) e que se trata de um experimento da vinícola (no caso, o
experimento está relacionado ao formato ovalado e não à aparência externa).
Idas e Vinhas
Do outro lado da pequena bodega veem-se os
tradicionais tonéis de madeira e os barris de carvalho. Obs.: notem que os
tonéis utilizam o colmatore (já
comentado em nossa postagem sobre a Vignamaggio).
Idas e Vinhas
Terminamos o nosso pequeno tour retornando pelo caminho por onde entramos. Ainda dentro da
bodega há uma mesa e uma bancada para degustações, mas como éramos só nós dois,
fomos conduzidos novamente à loja para fazer a degustação lá mesmo. Na foto
abaixo é possível perceber como a bodega é pequena e, ao mesmo tempo,
aconchegante.
Idas e Vinhas
Em nossa degustação provamos 4 vinos: RE Pinotel (Pinot Noir e Moscatel
Rosado), RE Chardonnoir
(Chardonnay e Pinot Noir), RE Cabergnan
(Cabernet Sauvignon e Carignan), Vigno by Viña Roja (100%
Carignan) – acompanhados de queijos, pão, azeitonas e vinagre balsâmico. Para
sermos muito sinceros, é preciso dizer que nenhum dos vinhos provados nos
agradou em cheio com exceção do varietal Carignan (versão da Bodegas RE para o
projeto Vigno  – Vignadores de Carignan) – que consideramos o destaque da visita. É importante ressaltar
que, ao buscar maiores informações sobre o que degustamos, descobrimos que
praticamente todos os vinhos da bodega são muito bem pontuados em guias
especializados e por isso cremos que o problema estava conosco e não com o
vinho. Os acompanhamentos cumpriram seu papel e a guia idem, com discrição.
Embora tenhamos achado a loja muito bonita e bem decorada, os preços do
artesanato não eram acessíveis a pessoas com orçamento limitado.
É “mais passeio” ou é
“mais vinho”?
É mais empate
(seria um “vinheio”?). O tour foi
conduzido de maneira um tanto quanto burocrática, pois a guia não se esforçou
em destacar os diferenciais desta vinícola. O fato curioso é que sempre que
conseguimos fazer uma visita a sós com os guias elas são melhores do que se
estivéssemos inseridos em um grupo grande – na Bodegas RE nos pareceu que
ocorreu o contrário (pois acreditamos que se o grupo fosse maior a guia seria
menos “econômica”). Quanto aos vinhos, sentimos certa frustração porque não pudemos
provar o “vinho laranja” EN RE DO (Gewürztraminer
e Riesling)
que é uma das estrelas da casa. O vinho não estava incluído em
nossa degustação e para incluí-lo deveríamos comprar a garrafa inteira – um
risco muito alto a correr para quem nunca havia provado este tipo de vinho até
então. Como já dito, os vinhos que degustamos não empolgaram mas isso pode ser
creditado a nossa falta de experiência com o “novo”. Parece que teremos que
retornar…
¡Salud!
Enocuriosos
*fotografias
de Dagô e Simone.
Para
entender melhor o começo desta história no Valle
de Casablanca
, veja o relato de nossas visitas à Veramonte e à Emiliana
aqui e aqui.

Gostou dessa
postagem? Nossa segunda viagem ao Chile começou
aqui.

Enocuriosos… Viñas de Chile – Emiliana

Idas e Vinhas


Falta muito?
– 10
minutos.
– Quero
saber a distância, não o tempo. Aliás, vai dar tempo?

Com certeza não. A menos que passasse alguém de carro e nos desse uma carona…

Aqui?! No meio do parreiral?! Um carro?!
– É.
Eu sei que é improvável…

– Peraí, você está ouvindo isso?
Que barulho é esse?

– Parece um furgão… Estamos salvos!
– Não deixa ele passar! Quero dizer… será que a gente tem
coragem de pará-lo?
– Vamos descobrir agora…
Quando não há opção as escolhas já estão feitas. Poderíamos
mentir e dizer que pedimos carona com a maior desfaçatez, mas a verdade é que o
motorista da caminhonete da vinícola é que teve dó de nós e gentilmente ofereceu
ajuda. Nossa expressão de cansaço, as mochilas que carregávamos e o caminho a
perder de vista devem ter causado comoção. Agradecidos, nos apinhamos na cabine e demos graças aos céus por ter o passeio
salvo com aquela ajuda providencial.
Dando sequência a nossa narrativa, o relato de hoje é sobre a
visita à viña Emiliana.
Nossa ida à Emiliana
estava cercada de bastante expectativa por se tratar de uma vinícola que produz
exclusivamente vinhos orgânicos e biodinâmicos. Além disso, seria a
primeira vinícola que visitávamos com a possibilidade de realizar degustações
acompanhadas de chocolate – o que, além de incomum, soou para nós como algo
bastante instigante.
Não vamos nos aprofundar em conceituações porque não
possuímos conhecimento estruturado sobre enologia, mas podemos dizer que vinhos
orgânicos são aqueles que não se utilizam de agroquímicos durante as diversas
etapas de produção; já o conceito de biodinâmico pode ser entendido como o
respeito aos princípios da natureza, propondo a produção de artigos agrícolas
em alinhamento aos ciclos do sol, lua, planetas e a integração entre os reinos
animal, vegetal e mineral (para informações mais detalhadas visite as páginas
da vinícola aqui e aqui).
Voltando a nossa narrativa, chegamos à recepção meio que
esbaforidos (ou como se tivéssemos caído de um caminhão de mudanças). Olhamos o
relógio do salão e finalmente relaxamos – conseguimos
chegar a tempo!
Fomos muito bem recebidos pelo staff – de forma gentil e descontraída – o que ajudou a nos
sentirmos acolhidos. Após deixar nossa bagagem no escritório e recuperarmos as
energias com um bom copo de água, fomos a campo.
Nosso guia passeou conosco pelo parreiral e explicou alguns detalhes da
agricultura biodinâmica. Aproveitou para apresentar pequenos exemplos tais como
a criação de algumas alpacas (vide a foto de capa) que são utilizadas para
limpar o terreno de plantas daninhas, porém sem o efeito colateral produzido
pelas vacas (pois o peso da alpaca é muito menor e o solo não fica compactado
como ocorreria com o caminhar dos bovídeos). Em seguida fomos apresentados
também ao conceito dos galinheiros móveis que são utilizados para fazer com que
as galinhas d’angola da vinícola possam cuidar de toda a propriedade. Funciona
assim: estas aves são predadoras de diversos tipos de insetos potencialmente
nocivos ao parreiral. Como elas dificilmente se afastam de sua “vizinhança”, a
solução encontrada foi movimentar o galinheiro que está instalado sobre rodas (tal
como um reboque) por toda a propriedade de forma que as galinhas possam
“trabalhar” em todo o terreno sem se afastar de sua “casa”.
Idas e Vinhas
Ainda no campo, nos intrigou a
presença de hélices gigantescas ao longo de todo o vinhedo – muito semelhantes
a geradores de energia eólica. Questionamos nosso guia que prontamente nos
explicou que aqueles equipamentos eram, na verdade, ventiladores e que são
utilizados para impedir a formação de geadas (comuns no Valle de Casablanca em
função da entrada de massas de ar muito geladas por conta da proximidade com o
mar, entre outras causas). O uso dos ventiladores mostrou-se uma alternativa
mais eficiente do que cobrir todo o parreiral com telas (um recurso utilizado
em alguns tipos de cultivo).
Idas e Vinhas
Outro ponto que chamou nossa atenção foi a presença de
algumas oliveiras junto aos vinhedos. O guia informou que os trabalhadores da viña têm liberdade para produzir azeite
e vendem esta produção de forma independente à Emiliana (tanto na loja da vinícola quanto na cidade de Casablanca). Outro destaque do tour foi a visita à horta (orgânica e
biodinâmica) que é administrada também de forma independente por todos os
funcionários da vinícola – fomos (inclusive) apresentados a uma pequena seção que
estava sob responsabilidade do nosso guia. Ah, para ajudar a entender um pouco
mais sobre como pode ser aplicado o conceito de biodinâmico, veja esta tabela:
Idas e Vinhas
Trata-se de um calendário de colheita de produtos hortícolas
que foi criado tendo como base as fases da lua e as estações do ano (entre
outras referências). Cabe aqui uma reflexão: muitas vezes é mais fácil seguir
os caminhos da natureza e colher aquilo o que ela nos oferece – entendendo os
ciclos da vida e se adaptando a eles – do que “brigar” contra o fluxo e forçar
artificialmente uma dominância do homem sobre o meio. Pareceu-nos que seguir
essa lógica natural é um dos pilares da agricultura biodinâmica – um princípio
de harmonia, respeito e coexistência. Permitir que os trabalhadores usufruam da
terra a seu modo é também uma manifestação de respeito e harmonia e um sinal de
que a Emiliana deseja se manter
alinhada a iniciativas relacionadas à responsabilidade social.

Antes que alguém pense que estamos esquecendo que este é um blog de
vinhos, vamos falar da degustação. Após o passeio à pé pelo campo, fomos
conduzidos novamente ao edifício principal – mais precisamente a um balcão de
degustações com uma grande vista para a área externa. Havíamos agendado o Tour
e teríamos apenas que escolher se nossos acompanhamentos seriam queijos
ou chocolates orgânicos. O guia sugeriu que cada um de nós escolhesse um
acompanhamento distinto, pois assim poderíamos aproveitar os dois tipos. E desta
forma fizemos. (Sábia sugestão). Os vinhos degustados seguiram uma “crescente” quanto
a leveza e complexidade: Adobe Reserva Sauvignon Blanc, Novas Gran Reserva Sauvignon Blanc, Signos de Origen Carmenere, Coyam e . Os queijos não se destacaram, mas os chocolates orgânicos combinados
aos vinhos tintos… sem dúvida foram o ponto alto! Quanto aos vinhos, o Sauvignon Blanc da linha Novas e o Coyam foram o destaque. Curiosamente (não sabemos se em função da
safra ou pelo estágio de amadurecimento) o
pareceu-nos menos interessante que o Coyam.

Idas e Vinhas
Acreditem ou não, neste mesmo dia ainda teríamos que almoçar
em um restaurante próximo e seguir para nossa terceira e derradeira visita.
Sendo assim, nos municiamos de uma garrafa de Coyam e outra de Signos de Origen Syrah
(temos uma preferência assumida por esta casta) e partimos novamente a pé para
nosso próximo destino ainda no Valle de
Casablanca
.
É “mais passeio” ou é
“mais vinho”?
É mais vinho.
Embora seja possível visitar boa parte dos vinhedos e conhecer o conceito de
equilíbrio ambiental da propriedade (o que foi, para nós, uma experiência
enriquecedora), o fato é que a linha de produção da Emiliana não está instalada nesta propriedade e isso limita a
possibilidade de focar um pouco mais nos aspectos da produção pós-colheita.
Fomos muito bem atendidos e a degustação foi conduzida de forma muito
profissional, mas ficou aquele gostinho de “quero mais”. Dos vinhos provados
guardamos uma boa impressão do e
do Coyam – algo que já seria
esperado. Tendo como referência o custo X benefício, recomendamos a aquisição
de ao menos uma garrafa de Coyam.
¡Salud!
Enocuriosos
*fotografias
de Dagô e Simone.
Para
entender melhor o começo desta história, veja o relato de nossa visita à
Veramonte
aqui.
Obs.: Se você pretende visitar a Emiliana, mas não tem
interesse em passar antes na Veramonte, pode pegar um ônibus para Casablanca no 
Terminal San Borja (Santiago) e, ao ingressar no veículo, pedir ao motorista para
descer na estrada, em frente à vinícola (logo após o pedágio da Ruta 68). Como não há uma
parada de ônibus “oficial” neste local, pode ser necessário ir até Casablanca e
de lá retornar em um táxi – não é tão longe assim.
Gostou
dessa postagem? Nossa segunda viagem ao Chile começou
aqui.

Se quiser conhecer um
pouco mais sobre a Emiliana, não deixe de ler o
relato sobre a degustação conduzida por Ana Cristina e Alexandre na
Bardot – Vinhos e Arte.

Enocuriosos… Viñas de Chile – Veramonte

Idas e Vinhas

Sempre que começamos a planejar um roteiro de visitas a vinícolas surge,
quase que de imediato, uma questão: “– É possível visitar estas bodegas
utilizando transporte público?” Pode parecer pouco relevante à primeira vista,
mas para os Enocuriosos é importante
empenhar o orçamento com visitas privativas e aquisição de bons vinhos e para
isso abrimos mão de gastar dinheiro com transporte exclusivo (remis e transfer)
– mesmo que isso acabe por trazer alguns pequenos contratempos.
As próximas postagens sobre as
vinícolas do Chile estão impregnadas deste espírito “enomochileiro”.

Desde nossa primeira viagem ao Chile (realizada apenas
6 meses antes) sentimos que seria imprescindível visitar o Valle de Casablanca e
aproveitar um pouco da fama que a região tem de produzir excelentes vinhos
brancos. Não queríamos alugar um carro porque isso acabaria por inibir nosso
desejo de degustar livremente. Contratar uma agência de “enoturismo de massa”
também não seria uma opção válida. Olhando no mapa é fácil perceber que há
várias vinícolas enfileiradas ao longo da ruta
68
e nosso raciocínio bastante simplório foi: “– se o ônibus percorre a ruta até Casablanca, ele há de passar em
frente ao nosso primeiro destino do dia”. Acertamos na mosca! A postagem de
hoje é sobre nossa visita à Casona Veramonte.
Nosso plano era sair de Santiago bem cedo e pernoitar por 3
noites no Vale de Casablanca – por isso trazíamos conosco alguma bagagem e
também o espaço necessário para acomodar algumas garrafas que certamente
compraríamos nas 6 visitas planejadas para o Vale (maior parte da bagagem,
deixamos no hotel, em Santiago, conforme já explicamos em outra ocasião – veja aqui).
Havíamos decidido não fazer qualquer tipo de tour na Veramonte por
dois motivos: (1) faríamos três visitas naquele dia e (2) não queríamos chegar
tarde ao nosso segundo passeio agendado para aquela manhã (pois poderia gerar
um atraso em cascata). Como nossa proposta era apenas degustar vinhos, nos
certificamos de que não seria necessário fazer reserva e tratamos de acertar os
detalhes relacionados ao deslocamento. O ponto de partida é o Terminal San Borja (já
citado em nossa postagem sobre a Viña Undurraga).
Ao ingressar no ônibus, explique ao motorista que você deseja descer na
estrada, em frente à Veramonte (a
localização precisa é o quilômetro 66 da ruta
68
). Não há uma parada de ônibus “oficial” neste local, mas é sabido que
algumas pessoas (na imensa maioria os trabalhadores da viña) descem em frente à vinícola. A parada é logo após o segundo túnel da rodovia e antes da
praça de pedágio. (Se algo der errado, você logo perceberá). Após desembarcar
na estrada, bastou andar 500 metros e logo estávamos dentro da enoboutique e
recepção.

Procuramos por uma das melhores degustações disponíveis à
época e pedimos para incrementá-la com os queijos que eram servidos em outro tour, pois não seria muito auspicioso
degustar vinhos às 10 horas da manhã sem algo para acompanhar (hoje o sítio
virtual da Veramonte oferece mais opções de degustações, algumas tão interessantes
que nos deu vontade de voltar a visitá-la em breve). O profissional que nos
atendia pediu um minuto para consultar outra pessoa do staff e logo em seguida informou que seria possível sim atender ao
nosso apelo com um valor adicional que consideramos mais do que justo.

Como havíamos chegado sem avisar, nossa degustação não estava preparada
e por isso mais um breve instante nos foi solicitado para arrumar a mesa em um
canto da loja – com uma bela vista para a sala de barricas.

Idas e Vinhas

Assim que
fomos acomodados à mesa, recebemos as notas de degustação de todos os vinhos
que nos seriam servidos bem como algumas orientações a respeito dos queijos que
complementariam a experiência. Embora de nível intermediário, as informações
foram suficientes para satisfazer nossa fome de conhecimento. Em seguida,
ficamos “a sós” neste pequeno refúgio da loja.

Degustamos 4 vinhos – Veramonte Reserva Sauvignon Blanc 2014, Ritual Pinot Noir 2013, Primus The Blend 2013 e Neyen 2010 – poucas vezes uma sequência de vinhos
mostrou-se para nós tão adequada e bem sucedida no intento de demonstrar o que
de melhor e mais variado a casa tem para oferecer a seus visitantes. Os queijos
“maridaram” muito bem com os vinhos e não há nada a ressalvar quanto ao
conforto e beleza do ambiente. Estávamos muitíssimo à vontade.

Idas e Vinhas

A
loja (já à época – março de 2015) era bastante bonita e, ao ver fotos atuais do
mesmo local, foi possível identificar que fizeram uma bela reforma. A Veramonte possui um portfólio extenso
e isso facilita bastante a tarefa de projetar uma boutique porque a variedade de
formas, cores e rótulos multiplica as possibilidades de arranjo – uma pena não
termos boas fotos para ilustrar melhor.

Idas e Vinhas
Antes de
encerrar este relato gostaríamos de partilhar com quem nos lê uma situação
curiosa. Assim que chegamos à Veramonte
informamos ao staff que tínhamos
visita agendada para outra vinícola com localização muito próxima e perguntamos
se seria possível ir à pé de uma bodega a outra, por dentro do vinhedo (elas
são vizinhas na estrada). Foi visível o espanto com nossa pergunta (porque
havíamos acabado de chegar) e após alguns segundos de indefinição a resposta
foi unânime – teríamos que solicitar um táxi (algo que os funcionários se
prontificaram a fazer quando chegada a hora). Faltando apenas 40 minutos para
nosso próximo compromisso, achamos estranho que o táxi não havia sequer sido
chamado (pois percebemos que todos os atendentes da loja estavam ocupados com
outras atividades) e perguntamos se havia algum problema. Um dos atendentes nos
chamou para um canto da loja e contou em um “quase sussurro” que não valeria a
pena chamar um táxi, pois o caminho que ele faria vindo de Casablanca até a Veramonte é bem maior e mais demorado
do que o trajeto que faríamos até a vinícola vizinha. Em seguida, nos orientou
a utilizar a saída de serviço da bodega (pela lateral) avançando pelos vinhedos
da Viña Emiliana. Agradecemos aliviados
e felizes (afinal era isso o que queríamos deste o início) e saímos com pressa,
duas mochilas nas costas, um Ritual
Pinot Noir 2013
e um Primus The
Blend 2013
. Tínhamos apenas 20 minutos e um longo quartel de Cabernet Sauvignon a percorrer embaixo de
sol antes de nossa próxima enoexperiência.
Em breve
contaremos aqui o resultado desta gincana.
É “mais passeio” ou é
“mais vinho”?
É mais
vinho. Na verdade, não fizemos qualquer passeio e, portanto, não poderíamos
avaliar algo que não conhecemos de fato. A degustação atendeu perfeitamente a nossa
expectativa e necessidade. Agradou-nos bastante a flexibilidade dos
profissionais que nos atenderam, pois acolheram com gentileza nossas “particularidades”
e ajudaram a fazer daquele momento algo realmente especial. É importante deixar
registrado que lamentamos profundamente não ter adquirido uma garrafa do Neyen, mas, naquele momento, pensamos
estar sendo prudentes – considerando o tanto de vinícolas que ainda tínhamos
por visitar… Ao fim daquela viagem mesmo, diríamos que fomos prudentemente
bobos.
¡Salud!
Enocuriosos
*fotografias
de Dagô e Simone.

Gostou dessa
postagem? Nossa segunda viagem ao Chile começou
aqui.


Ana Cristina e Alexandre Follador também visitaram a Veramonte! Veja aqui.

Enocuriosos… Viñas de Chile – San Esteban

Idas e Vinhas

Já faz um bom tempo que não escrevemos sobre nossa
segunda viagem ao Chile, não é mesmo? A verdade é que estivemos a adquirir
novas enoexperiências por aí e faltou tempo (ou inspiração) para falar
(escrever) sobre uma viagem que já está guardada em nosso arquivo de memória
“intermediário”. Como ainda temos muito a contar sobre as vinícolas visitadas no
Chile (foi, disparado, nossa melhor enoviagem – até o momento) vamos, aos
poucos, retomando a narrativa.

Ao final da visita e degustação na Viña Errazuriz, a D.
Nancy Vergara (taxista muito gentil e atenciosa que tivemos a sorte de conhecer
na saída do terminal rodoviário de San Felipe) já nos aguardava para nos levar
ao próximo destino, localizado a 35 quilômetros dali, na localidade de Paidahuen: a Viña San Esteban.
No
caminho, nos demos conta de que precisávamos almoçar (!) – não havíamos sentido
falta de comida até então… (Quem disse que vinho não alimenta?) Acabamos
aceitando a sugestão da Sra. Vergara e fomos almoçar no Raconto –
um restaurante tradicional localizado na Plaza de Armas (a praça central de San
Felipe). Valeu a pena. Comida caseira, bem feita, bom tempero, bom atendimento
e preços justos. Então, de “panduio” cheio, e já a bordo de nosso “táxi-guia”,
sentimo-nos preparados para provar ainda mais vinhos!
Chegando a San Esteban fomos recepcionados pela simpaticíssima Daniela.
A vinícola é bonita (embora mais simples que outras grandes e mais famosas no
Chile – o que não chega a ser um defeito, pois a simplicidade tem lá o seu
charme) e oferece passeios muito interessantes,
desde cavalgadas a visitas a um parque arqueológico, passando por pedaladas
entre os vinhedos. Infelizmente, por conta dos recursos financeiros de que
dispúnhamos e de outras prioridades que elegemos para aquela viagem, tivemos de
nos privar de alguns prazeres – e um passeio desses, no fim das contas, na
ponta do lápis, representaria visitar menos vinícolas (e, consequentemente,
conhecer – e comprar – menos vinhos)… Fizemos, então, uma visita com
degustação, tão somente. Ainda assim, foi bem bacana.
Demos
início ao tour ali mesmo, logo ao lado da recepção. Os vinhedos tomam conta de
toda a área externa e com alguns poucos passos já estávamos a mirar aquela já
conhecida visão do parreiral carregado de frutos. Daniela nos ofereceu a prova
de algumas espécies tintas e brancas, já bem doce pelo estágio da maturação
àquela altura. Muito divertida e à vontade, nossa guia também nos deu uma dica
de como fazer uma bela foto do vinhedo. A dica da foto nós já conhecíamos,
aprendemos numa visita no Brasil (veja aqui), mas valeu de toda forma!
Embora
Daniela tenha informado ser também enóloga, sua função na vinícola estava
restrita às atividades turísticas e, antes que pudéssemos questioná-la sobre trabalhar
em uma função distinta de sua formação técnica, ela deixou claro que é muito
feliz recebendo os turistas e trocando experiências com os inúmeros visitantes.
Explicou que o trabalho do enólogo é muito monótono e solitário e que isso não
era bem o perfil dela. (Percebemos ali que nossa visita seria um pouco
“diferente” do habitual).
Nossa
guia explicou que a Viña San Esteban
segue o estilo francês, mas nossa quase total ignorância sobre o que aquilo
significava nos impediu de perguntar maiores detalhes sobre esta característica.
Enquanto tentávamos descobrir algum indício do referido estilo, visitamos a
enorme sala de barricas e recebemos aquelas informações básicas sobre barricas
de 1º, 2º e 3º usos e sobre o tempo de vida útil das mesmas.
Idas e Vinhas
Em
seguida adentramos ao salão onde se encontravam os tonéis de aço e neste
momento aconteceu algo curioso: a guia decidiu iniciar a degustação com um
vinho branco ainda em fase de produção. Para tornar a experiência mais exótica,
a torneira que é utilizada para a degustação em processo (feita normalmente
apenas pelo enólogo da casa) estava emperrada e a solução foi utilizar o
registro principal. A foto abaixo diz mais do que qualquer palavra:
Idas e Vinhas
Não
lembramos qual a casta daquela “bebida”, mas entendemos que qualquer que fosse
não faria muita diferença – o líquido ainda não era vinho. Depois desta prova,
visitamos brevemente a linha de engarrafamento e nos dirigimos ao ponto inicial
– a recepção e loja de vinhos. Fizemos a degustação em pé, em volta de uma mesa
disposta bem no meio do salão. Provamos 4 vinhos da linha In Situ Reserva (de gama
média), acompanhados por ameixas e nozes. Os vinhos servidos foram: In Situ Sauvignon Blanc Reserva, In Situ Carmenère Reserva, In Situ Syrah Reserva e In Situ Cabernet Sauvignon Reserva. (Infelizmente não tomamos nota sobre o ano das
safras). O acompanhamento revelou-se adequado ao perfil dos vinhos e a proposta
da degustação, bastante informal, foi coerente com o perfil da visita.
Idas e Vinhas
Nossa guia: Daniela
Após
a degustação, exploramos um pouco a loja que, embora pequena, é muito bonita.
Havia muita variedade de vinhos e algumas opções de azeites (também produzidos
pela casa). É digno de nota que os preços dos vinhos eram muito acessíveis e
acabamos por adquirir um In Situ Signature Wines Aconcagua Blend para provar em casa.
Após
aproximadamente 1 hora e meia de visita estaríamos prontos para regressar a
Santiago se não houvesse um ponto turístico em nosso caminho de volta à capital:
o Santuario de Santa Teresa de Los Andes. (Para além da convicção religiosa de cada um, os Enocuriosos guardam certa empatia por
templos religiosos históricos e não poderíamos deixar de visitar um destes
quando o mesmo se encontra em nosso caminho. Achamos igualmente válido
registrar a dica por aqui).
Idas e Vinhas
Soubemos
previamente que o Santuario de Santa Teresa possui uma parada de ônibus e de que
lá poderíamos encontrar opções para Santiago. (Recorrendo ao mapa
para perceber que praticamente não há desvio no itinerário para fazer esta
breve visita). Chegando ao Santuário despedimo-nos de D. Nancy, pois o regresso
até a capital já estava garantido.
É “mais passeio” ou é “mais
vinho”?

É
mais passeio. É preciso deixar claro que não provamos os vinhos de alta gama e
tampouco escolhemos os passeios/opções turísticas mais sofisticadas. Então…
comparando vinhos medianos a um passeio mediano nos agradou mais o passeio. É
claro que a extrema simpatia e naturalidade da Daniela tornou nossa tarde muito
mais agradável e, também porque fizemos o tour
sem a presença de outros turistas, conversamos com ela assuntos que um
receptivo turístico mais formal não permitiria. O roteiro da visita não se
diferenciou de outras boas visitas a vinícolas e, por isso, focamos em explorar
as histórias de nossa guia e sua percepção sobre turismo enológico. Ficamos com
a impressão de que a Viña San Esteban
merece ser visitada para um passeio completo, utilizando as outras opções ofertadas
na página virtual. Os vinhos degustados não se sobressaíram, tampouco
comprometeram o prazer da visita.
Se
você pretende visitar alguma outra vinícola na região de Los Andes esta pode
ser perfeitamente sua 2ª opção. Para nós que estivemos na Errazuriz
pela manhã, a visita foi bastante conveniente.
¡Salud!
Enocuriosos

*fotografias de Dagô e Simone.

Gostou dessa postagem? Nossa segunda viagem ao Chile começou aqui.

Enocuriosos… Bebericando por aí – Esencia Uruguay – Montevidéu

Idas e Vinhas



Nos
dois últimos anos os Enocuriosos
estiveram em Montevidéu durante o
verão para apreciar o carnaval local e, se possível, curtir alguma vinícola das
tantas naquele país – famoso pela tannat.
Infelizmente, visitar bodegas no Uruguai sem contratar uma agência de turismo
não é das tarefas mais fáceis (o que dará origem a uma nova série sobre esse
país aqui no blog) e, por isso, por
uma questão de praticidade, propostas como a da Esencia Uruguay nos chamam a atenção.
Já havíamos observado a loja em 2015, mas não tivemos tempo de disfrutar das
suas ofertas àquele momento. Este ano, ao retornar ao encantador ‘paisito’, nos aventuramos a conhecê-la.

A Esencia
Uruguay
tem como proposta ser uma boutique de vinhos produzidos
exclusivamente no Uruguai. Há também venda de uma marca de azeite (igualmente
local) e chocolates artesanais. Além disso, um grande atrativo da casa (ao
menos para nós) é poder degustar boa parte da produção de vinhos finos do país
sem precisar se aventurar por Carmelo,
Canelones ou Punta Ballena. Cabe ressaltar, entretanto, que a Esencia Uruguay é, primeiramente, uma
loja e, como tal, tem por principal atividade a venda de vinhos aos turistas
(que, em alguns momentos, chegam em “bando”) e cremos que sua localização é
estratégica para atingir seu objetivo (está localizada no Peatonal Sarandí, 359).
A
proposta da casa é oferecer três tipos de degustação diferentes: Degustación Premium (3 taças de vinho
com aperitivos), Degustación Aceite de
Oliva
(3 tipos de azeite com pão) ou Degustación
de Chocolates
(chocolates acompanhados de café e licor). Como enocuriosos que somos, fomos de Degustación Premium. O diferencial
positivo (e, por vezes, também negativo) da casa está justamente neste tipo de
degustação: todos os dias são escolhidos (e disponibilizados) 3 rótulos
diferentes do dia anterior. Assim sendo, deve-se considerar de imediato duas
coisas: 1. Não é possível eleger os vinhos de sua degustação (a menos que
compre uma garrafa inteira) e 2. Por outro lado, visitar mais de uma vez a Esencia
Uruguay
fará com que você, certamente, conheça mais sobre a produção
local. Como o preço da degustação é bastante convidativo, não seria descabido
visitar até mais de 2 vezes e fazer um “tour enológico” mesmo sem conhecer as
bodegas.
É preciso dizer que o espaço destinado à
degustação não é grande e o conforto não é o principal atributo – na verdade,
são apenas 3 mesas com banquetas no canto da loja (que por sinal é muito bonita
e organizada).
Idas e Vinhas
Não
é necessário marcar um horário para degustar porque não há uma apresentação
estruturada dos vinhos (com todas as informações que gostaríamos de receber se
estivéssemos em uma vinícola). A proposta é conhecer um pouco mais sobre os
vinhos e tirar algumas dúvidas. A senhora responsável pela loja (e que nos
atendeu) fez uma explicação resumida sobre os vinhos com as características
básicas de cada um, os acompanhamentos sugeridos e alguns dados sobre o
produtor. Em nossa degustação provamos Tannat Rosé – 2015 (Bodega Artesana), Pinot Noir Reserva 2015 (Pizzorno Family Estates)
e Tannat Gran Reserva – Ysern – 2012 (Bodegas Carrau).
Idas e Vinhas
Os petiscos
são adequados, mas a quantidade é módica por demais (o que fez com tivéssemos
que dosar cada mordida para não faltar acompanhamento frente à boa quantidade
de vinho servida). O destaque é o azeite O’33 José Ignacio – Coupage Blancblend das espécies Frantoio e Leccino –
muito bom e que não pudemos deixar de comprar (não devendo nada a um bom
azeite italiano).
Idas e Vinhas
Quanto aos vinhos… foi interessante provar um rosé feito a partir da Tannat
e que foi fermentado em madeira – sem dúvida a percepção é muito diferente do
que comumente esperamos de um “rosado”. O Pinot Noir, a nosso ver, “pecou” um
pouco pelo excesso de madeira (tanto em nariz como em boca), anulando a “delicadeza”
que se espera de um pinot. Já o Tannat
Gran Reserva
não atendeu à expectativa para um vinho com 18 meses de
envelhecimento em barrica.
De toda forma, consideramos a escolha dos vinhos
para a degustação daquele dia bem interessante, pois propiciou conhecer um
espectro bem variado da produção local e, principalmente, explorar alguns
pontos extremos de nossa sensibilidade. É divertido também “investigar” a
diferença de cores e “peso” de cada vinho.
Idas e Vinhas
Quando
encerramos a prova, a senhora responsável pelo serviço se aproximou para
conversar sobre nossas impressões e explicar um pouco mais sobre o estilo de
cada vinícola – foi curioso ver que algumas de nossas percepções estavam
perfeitamente alinhadas com o que o produtor pretendia para o vinho. Não dá
para dizer que “acertamos tudo” ou mesmo que concordamos exatamente com o que
nos foi explicado mas, sem dúvida alguma, foi um exercício interessante e construtivo.
Por fim, conversamos um pouco sobre enoturismo e visita a
bodegas. Aproveitamos para adquirir duas garrafas de bodegas que não poderíamos
visitar durante nossa viagem. O destaque, digo, a grande aposta, fica por conta
do único torrontés uruguaio que
encontramos nas prateleiras (da Bodega
Pisano
) e que ainda iremos provar… (Mais adiante a gente volta para comentar
sobre ele aqui…).
Idas e Vinhas
É “mais passeio” ou é
“mais vinho”?
É mais
passeio. Pelo preço da degustação, já esperávamos provar vinhos de categoria
intermediária e, por isso, não podemos dizer que fomos surpreendidos com o que
foi oferecido. O Tannat Rosé foi o destaque – o que, de certa forma, indica que
os tintos não agradaram ao nosso paladar. Considerando a degustação como um
passeio, é possível encontrar alguns bons argumentos que valorizam a
experiência: a localização é ótima (você não precisa contratar um serviço de transfer para visitar a loja); os preços
são muito bons; os horários, flexíveis; o atendimento, ainda que não seja dedicado
e exclusivo, é atencioso e, o mais importante: a proposta de vender (e ofertar
em degustações) somente vinhos uruguaios é realmente o grande diferencial e
ponto positivo. Recomendamos a visita a todos aqueles que pretendam passear pela Ciudad Vieja e conhecer
um pouco mais sobre os sabores locais. É provável que, em breve, nós mesmos estejamos
de volta por lá, para conhecer e comprar outros vinhos.
¡Salud!
Enocuriosos
*fotos de Dagô e Simone.

Enocuriosos no Velho Mundo… Itália: Castello Il Palagio

Idas e Vinhas
Em nossas “perambulanças” pelo
Chianti, muitas vezes, quando já não tínhamos visitas agendadas para aquele
dia, acabávamos por ter o que chamamos de “dias de cachorro” – nada
de pejorativo nisso, gente! Ter um “dia de cachorro” é assim: você
sai andando por aí, ao léu, apreciando a paisagem e, onde houver uma porta
aberta, vai entrando!

Foi
assim que conhecemos a vinícola Castello Il Palagio. Estávamos voltando de duas visitas já realizadas naquele dia (a Vignamaggio e outra que não interessa
comentar aqui). No Chianti, basta seguir as placas e procurar por uma “porteira
aberta”, deixando o faro e a intuição (ou, ainda, nosso desejo de conhecer mais
vinhos!) nos guiar. Obedecemos aos instintos e não nos arrependemos!

Assim que chegamos à sede da vinícola (um
pequeno castelo), nos deparamos com um vazio curioso e instigante – o tempo parecia
parado. Nenhum indício de atividade humana. A porta da loja estava fechada e um
grande portão que dava acesso a uma despensa, aberto. Tocamos a campainha, em
vão. Não havia absolutamente ninguém para nos atender. E isso é relativamente
(bastante) comum na Itália. Com pouco pessoal no receptivo, quando existem turistas para fazer
visita, a pessoa responsável fecha as portas e leva o grupo para
conhecer a propriedade. Chegamos exatamente num momento desses e, como nossa
outra opção seria voltar mais cedo para Firenze
(nosso pouso nesta ocasião), “farejamos” que não seria mau negócio esperar um
pouco…

Idas e Vinhas
Enfim, a porta aberta.
Depois de
uma espera considerável, avistamos o grupo retornando do passeio pelos
vinhedos. Aguardamos uma moça terminar de acomodar todos os turistas em uma
grande mesa (que foi preparada naquele instante) para servi-los e, em seguida, ela,
a simpática e despojada guia, achando graça da grande correria em que estava
envolvida, pediu que esperássemos un attimo
para que pudéssemos (enfim) degustar. Como não tínhamos agendado o passeio
(sequer sabíamos que esta vinícola existia e se produzia bons vinhos),
aceitamos o que foi proposto: fazer apenas a degustação dos azeites (especialíssimos)
e vinhos (ótimos) produzidos pela casa (aqui, gratuitamente – há locais que
cobram por isso).

A simpatia de nossa anfitriã foi uma injeção de
ânimo (pois já estávamos meio cansados da espera). Entre dicas de como degustar
azeites e informações sobre os vinhos da casa, ela nos contou que já dividiu
“apê” com brasileiros em San Francisco, que eram mineiros “muito
gente boa” e que, por conta dessa experiência, ela podia compreender o
português, embora nada falasse.

Idas e Vinhas
O que degustamos

Os
vinhos da casa eram muito bons. Encantadores! Especialmente dois, de que
gostamos muitíssimo! O Campolese 2007
(Sangiovese, varietal) e o Curtifreda 2011
(Cabernet Sauvignon, igualmente varietal). Sobre este último, nos arrependemos
de não tê-lo comprado. Assim que você o prova, parece bom (só). Mas ele é mais
que isso. O retrogosto vai evoluindo e se abrindo e você vai percebendo que há
muitas características não óbvias ali, que se trata de um vinho incomum! Para
não dizer que nosso “vacilo” foi total, trouxemos para casa o Campolese. Provamos também: Chianti Classico 2012, Chianti Classico Riserva 2007, e Montefolchi 2007 (Merlot,
varietal).

Idas e Vinhas
Nossa aquisição
É “mais passeio” ou é
“mais vinho”?
É mais vinho.
Na verdade, não podemos avaliar o passeio porque, de fato, não o fizemos.
Desfrutamos de agradáveis momentos durante a degustação e acreditamos que a Il Palagio tem mais a oferecer. Nossa prova de vinhos e azeites foi muito, mas muuuito
além do esperado – dois varietais muito bem produzidos e azeites para lá de requintados.
O atendimento “à italiana” também marcou aquele fim de tarde especial na
Toscana.
Temos
certeza de que demorará muito tempo para esquecer tão agradável sensação de
estar à toa e à vontade mesmo tão longe de casa.
Salute!
Enocuriosos
*fotografias
de Dagô e Simone.

Gostou dessa
postagem? Nossa viagem à Itália começou
aqui.

Enocuriosos… Perambulando pelo Brasil: Vinícola Cainelli

Idas e Vinhas

Estivemos
na Vinícola Cainelli em janeiro
de 2015, na mesma ocasião em que retornávamos a Bento Gonçalves para revisitar
a Cristofoli (que já havíamos visitado
no ano anterior). Aliás, foi o pessoal da Cristofoli que, muito gentilmente, nos ajudou com o
agendamento do passeio na Cainelli.

Esta singela e pequena vinícola está situada às margens da BR 470, no Distrito Tuiuty – em um trecho da estrada com bela paisagem e alguns mirantes no
entorno. Como só tínhamos disponível
um dia em que a vinícola não teria programação de seu grande evento (e que tanto queríamos fazer): a colheita e a “pisa” das uvas, a solução encontrada pela família Cainelli para nos atender foi oferecer um passeio de tuc-tuc que…
amamos!

(“Taí”
um diferencial arrebatador entre se fazer visitas a vinícolas no exterior ou no
seu país – afora as diferenças propriamente enológicas, claro… Não há nada
como o acolhimento, o sentimento de “irmandade”, o bom “jeitinho brasileiro”
que se dá na hora de receber um turista desavisado que chegou em momento,
digamos, impróprio… O brasileiro te acolhe, arruma mais uma cadeira e te
convida pra sentar, dá o seu jeito. Em outros países, na grande maioria das vezes, te apontam a plaquinha de
“fechado” no canto do estabelecimento… (com deliciosas exceções, claro, mas não é o comum lá fora). Não
queremos defender que um esteja certo e o outro errado, de modo algum! Mas é fato
incontestável que não há coisa mais gostosa nesse mundo de Deus do que se
sentir bem recebido e acolhido! Mesmo (ou principalmente) quando você sabe que
não poderia exigir ou esperar isso…)

Não
havendo, então, como nos receber para a experiência (tão desejada por nós) da colheita e pisa,
a família Cainelli nos ofereceu esse passeio de tuc-tuc (uma espécie de
“tratorzinho” utilizado pelos produtores da região – neste caso, adaptado para
receber turistas a bordo). Quem nos guiaria em tal aventura seria o carismático
e divertido senhor Nei, um também produtor local que, entre parreirais e
construções históricas, entre grandes vinícolas e pequenos lotes de
agricultores locais, entre chão de terra e trechos de estrada, nos contava “causos”, apontava lotes de moscatel, de merlot, fazia piadas, tornando o passeio
mais que especial! Um senhor muito sábio, espirituoso e… famoso! (Há um monte
de matérias sobre o Sr. Nei na internet). Ele roubava a cena muitas vezes, por mais que a paisagem fosse linda a nossa
volta!
Idas e Vinhas
Paradinha
para espiar a vista, contemplada também pelo Sr. Nei.
Idas e Vinhas
A
vista!

Quando
chegamos ao lote de parreirais do seu Nei, saltamos do tuc-tuc para fazer
fotos. Alguns senhores trabalhavam na colheita naquele momento, todos nos
cumprimentaram de modo acolhedor. Era tudo muito bonito, verdadeiro e especial…

Idas e Vinhas
Na lida
Idas e Vinhas
E a “turistada” se esbaldando…
Nesse
momento, o Sr. Nei nos ensinou como fazer uma foto perfeita de uma videira
carregada. A “técnica” não requer prática nem tampouco expertise, mas não é indicada para
pessoas que sofrem de labirintite! Você fica de costas para o vinhedo que
deseja fotografar, depois abre as pernas e dobra a coluna para baixo. Neste
momento você estará vendo o mundo (o parreiral) de ponta-cabeça. Então é
só ajustar o foco da máquina apontando para o “objeto” a ser
fotografado. Quase sempre dá certo!

Idas e Vinhas

Foto batida com a técnica recém-aprendida. (Dá para ver a diferença? Só estando lá para perceber.)
(Ah! É muito importante usar repelente nesse
passeio! Sobretudo nessa paradinha no parreiral. As muriçocas fizeram a festa!)

De volta à casa sede da Cainelli, visitamos o
pequeno museu – uma casa típica dos imigrantes italianos que ali chegaram. É
singela e muito bonita. O valor do ingresso é módico e pode ser revertido em
desconto para sua compra na “lojinha”, o mesmo vale para o valor cobrado pela
degustação.

Idas e Vinhas
Oratório representativo dos costumes nas casas italianas – exposto na casa-museu da Cainelli
E a degustação? Após o passeio de tuc-tuc e a
visita ao museu, fomos muito bem recebidos pelo jovem enólogo, Roberto Cainelli
Jr., responsável pelo novo impulso dado a esta bodega. Roberto, tal como Bruna
(da Cristofoli), ingressou nos cursos técnico e superior em enologia para
conhecer mais sobre a arte de fazer vinhos e levar a produção do vinho familiar
a outro patamar, mais refinado, respeitável e competitivo. O entusiasmo e
simpatia ao contar um pouco sobre a história da família e, principalmente, ao
elencar as características de seus vinhos são realmente encantadores. Não há
como não se envolver.
É “mais
passeio” ou é “mais vinho”?
Não há como não ser “mais
passeio”. Não
que os vinhos deixem a desejar, mas a vocação turística da Cainelli é
inegável e irrenunciável. O passeio de tuc-tuc e a visita autoguiada ao
pequeno museu são muito interessantes (e olha que não participamos da
colheita e pisa das uvas…). Quanto aos vinhos, provamos os
rótulos Espumante Brut, Espumante Moscatel, Lorena (uma variedade desenvolvida pela EMBRAPA) e Merlot. Gostamos
dos espumantes, muito simpáticos, e o branco, Lorena, foi uma grata e
interessante experiência. Certamente voltaremos à Cainelli para
completar o resto do passeio  (afinal, ainda nos falta a colheita e a
pisa!) e para, certamente, trazer alguns rótulos mais para casa.
Tim-tim!
Enocuriosos
*fotografias
de Dagô e Simone.

Conheça outras vinícolas que visitamos no sul do
Brasil aqui
e aqui.

Enocuriosos no Velho Mundo… Itália: Vignamaggio

Idas e Vinhas



Após termos almoçado no Castello
de Verrazzano, chegamos à
Vignamaggio por indicação das placas (e por sugestão do Alexandre). Chegando de
supetão, não conseguimos mais do que ser bem atendidos pela simpaticíssima
Cristine naquele fim de tarde. A visita com degustação, no entanto, foi
agendada ali mesmo para o dia seguinte!

De
volta à vinha, na manhã de domingo, fomos recepcionados novamente por nossa
adorável anfitriã. Nosso grupo era bastante pequeno e isso propicia
experiências bem bacanas e mais intensas, na maioria das vezes. Ademais, Cristine,
além da simpatia que já havia demonstrado na tarde anterior, é muito
espirituosa, tem grande desenvoltura e explica as coisas sobre a vinícola como
quem bate um papo com o grupo, de forma muito natural e à vontade.

Idas e Vinhas
A
vinícola está situada em uma das inúmeras e lindíssimas colinas da região –
aquele visual de filme romântico que você jura ser um cenário artificial. Pois
não é. Não há como não ficar entorpecido com a beleza dos jardins e toda a
natureza clássica do local. Aliás, a Vignamaggio
costuma organizar eventos e festas justamente explorando a área externa à casa principal.
Após dar uma “voltinha” no jardim só para nos ambientarmos, começamos a visita
pela parte externa, numa espécie de terraço que fica sobre as salas de
vinificação. Ali, Cristine nos apontou o sentido de outras regiões viníferas da
Toscana, os limites dos territórios Chianti
e como as uvas colhidas iniciam o processo de vinificação ao ser despejadas
dentro da bodega por escotilhas construídas naquela terrazza.
Em
seguida, entramos de fato na linha de produção, onde avistamos os tonéis de aço
inox e a máquina engarrafadora. Como ainda não estávamos na vindima, não foi
possível ver o todo o processo funcionando, mas foi possível identificar que a Vignamaggio é uma vinícola, diríamos, de
médio porte. Nossa guia fez questão de esclarecer em minúcias todo o processo
de fabricação e os cuidados com a temperatura e manejo do fruto e do mosto. As
fotos abaixo dão uma noção do tamanho das instalações.
Idas e Vinhas

O balé de Cristine: mais do que
um simples guia.

Idas e Vinhas
Linha
de engarrafamento.
Na
seção seguinte, adentramos os porões que guardam os tonéis e barris de
carvalho. Estes salões fazem parte da construção original que, segundo as
estimativas da própria vinícola, começaram a ser edificados no século XIV.
Neste momento a visita adquiriu uma característica única, pois a guia deixou de
falar apenas sobre a produção do vinho e começou a explicar detalhes sobre a história daquele pequeno burgo.
Idas e Vinhas
Mesmo
que nada fosse falado, seria muito fácil perceber que estávamos conhecendo uma
espécie de palácio que faz parte da história daquela região (e que já viveu
dias de glória em outra época), em vista do tipo da construção com suas paredes
grossas e envelhecidas, o pátio com o poço interno, a fachada imponente e algumas
insígnias. A cada novo ambiente era possível sentir (e imaginar) um pouco mais
sobre a história do local e como era curioso poder estar ali em pleno século
XXI, mesmo que por poucos minutos.
Idas e Vinhas
Em uma
das salas que abrigavam grandes tonéis de carvalho, Cristine deu detalhes sobre
uma das inúmeras invenções que Michelangelo deixou à humanidade
(sim, além de exímio artista plástico, este gênio foi também grande inventor):
explicou o que eram e qual a função dos artefatos de vidro colocados em cima
dos tonéis. O nome do equipamento é colmatore e sua função é impedir que
o ar se acumule nos tonéis em função da lenta e gradual reação gasosa e perda
de pequenos volumes permitida pela madeira do contendor. Como a reação
natural da perda de volume de líquido é o acréscimo de ar na parte de cima do
tonel (e este ar atuará para oxidar de forma indesejada o vinho), o colmatore atua para preencher
automaticamente (apenas com a força da gravidade) o volume de líquido que se
perdeu e evitar a oxidação. Além disso, serve também como um indicador para que
o responsável pela bodega preencha o equipamento com pequenas quantidades de
vinho de forma a garantir que continue a agir como desejado.
Cristine nos contou que todas as vinícolas do Chianti
Florentino utilizam este equipamento e se orgulham de fazê-lo. Visitamos outras
bodegas e pudemos confirmar o que ela disse. Em Montepulciano pudemos ver, inclusive, a reposição do vinho neste
curioso artefato.
Idas e Vinhas
Il
Colmatore
Bem,
a visita à Vignamaggio nos reservava outra particularidade: de uma das famílias
que já foram donas desta propriedade surgiu a famosa senhora – La Gioconda –
retratada por Leonardo da Vinci. O sítio virtual da vinícola explica
esta história em detalhes mas não há nada melhor do que ouvir as explicações do
guia lá na propriedade, podendo vislumbrar um pedaço da paisagem que faz parte
do célebre quadro. Ficamos alguns bons minutos apenas ouvindo o detalhado e, porque
não dizer, apaixonado relato de Cristine apontando sinais e correlações entre o
quadro e a paisagem local que nós, enocuriosos
e turistas, haveríamos de ignorar. Uma aula de história e delicadeza.
Idas e Vinhas
(Embora
Cristine não tenha comentado durante o tour,
gostaríamos de salientar que a Vignamaggio é também um agriturismo.
Imaginamos que desfrutar de um par de noites por lá seja um mergulho ainda mais
profundo na aura e história do lugar.)
Voltando
ao nosso passeio, vamos tratar do gran
finale
. Como estávamos na companhia do Alexandre, o tour seguiu o rito normal, mas a degustação recebeu alguns acréscimos
inesperados. Provamos mais vinhos do que teríamos direito numa simples visita.
Nossa degustação continha os seguintes rótulos: Chianti Classico (safras 2011 e 2013), Chianti Classico Gran Selezione, Obsession, Cabernet Franc
e, para encerrar, o Vinsanto. Neste link é possível
verificar a ficha técnica de todos os rótulos da casa. Para nós, o Gran Selezione se destacou e o Cabernet Franc não acertou nosso coração
(creio que por ainda não estarmos preparados para ele).
É “mais passeio” ou é
“mais vinho”?
É mais empate.
O tour, Cristine e a propriedade são únicos. Sentimos falta, entretanto, de
visitar os parreirais e ouvir um pouco mais sobre os aspectos e peculiaridades
da forma de produzir (e cultivar) escolhida pela vinha. Os vinhos mostraram-se
corretos e… clássicos. É claro que isso não é um problema mas ficamos com uma
pequeníssima frustração por não provar um rótulo algo arrebatador. Por isso o
empate. Ainda assim, podemos afirmar que o diferencial é o passeio e a propriedade
histórica do local. Veramente imperdíveis.
Saímos de lá quase sem saber o que fazer durante
a tarde livre no Chianti – sorte nossa que todos os caminhos chiantigianos levam ao vinho, às vinhas
e a boas e inesquecíveis histórias. Próxima parada – Chianti.
Idas e vinhas

há um caminho no Chianti…
Salute!
Enocuriosos
*fotografias
de Dagô e Simone.
Gostou dessa
postagem? Nossa viagem à Itália começou
aqui.

Enocuriosos… Viñas de Chile – Errazuriz

Idas e Vinhas

Depois da estada no Valle do Elqui, retornamos
para Santiago com o objetivo de estar perto de nossos próximos destinos: duas
“viñas” na província de San Felipe de
Aconcagua
. Uma dessas visitas foi motivada por reiteradas recomendações da
Ana Cristina sobre a beleza da bodega e as qualidades dos vinhos ícones da
casa. Vinhos ícones? (Como assim? Mais de um?!) Sim, o relato de hoje é sobre
uma casa que produz 5 ícones (!) – trata-se da famosa
Viña Errazuriz.

Os Enocuriosos procuravam conhecer outra
região vinícola do Chile e por isso o Valle de Aconcagua foi facilmente identificado em nosso “radar”.
Vejam só por quê: se encontra a pouco mais de uma hora de Santiago, possui boa
infraestrutura e boas estradas, é bem servido por ônibus intermunicipais e
possui uma das bodegas estelares do Chile. Foi após ler um pouco sobre a Errazuriz que soubemos ser ela a
estrela da Cata de Berlim e que seus vinhos tinham conseguido romper uma
difícil barreira – a influência da origem sobre a percepção da excelência.
Após
esta pequena introdução, vamos ao relato propriamente escrito. Em Santiago, tomamos
um ônibus para San Felipe diretamente no Terminal de Buses los Heroes. O
ônibus segue sem paradas até o terminal rodoviário desta pacata cidade (que
soubemos depois ser uma antiga rota de caminhoneiros que cruzam os Andes indo e voltando ao sul do Brasil)
e ali mesmo, na saída do terminal, é possível pegar um táxi com facilidade.
Nosso plano era bem simples: ir até uma cidade próxima e lá tentar fazer o
percurso de táxi (com o apoio da internet tudo fica fácil…). Tivemos a
felicidade de encontrar uma boa companhia de viagem, D. Nancy, que nos conduziu
com tranquilidade (e também uma boa proza) até nosso destino final – a 16
quilômetros da cidade, no povoado de Panquehue.
A
primeira visão da viña é simplesmente deslumbrante. Os vinhedos circundando
toda a propriedade, a bodega histórica e o edifício novo são parte de um
retrato muito peculiar e difícil de esquecer. Utilizando a visualização por satélite
fica mais fácil entender como esta gigantesca propriedade encanta – todos os
degraus dos montes são cobertos de vinhedos.
Chegando
à recepção (que fica na bodega histórica), fomos apresentados ao staff e após alguns minutos de espera
demos início ao passeio. Cabe aqui um parêntese: Agendamos a Visita Icono Don Maximiano e
fizemos o tour sem outros acompanhantes além do guia – normalmente ficamos
felizes quando isso acontece porque a visita acaba por se tornar exclusiva e,
de certa forma, personalizável e menos roteirizada. Infelizmente não foi esse o
caso, pois a sensação que tivemos foi a de que estávamos atrapalhando a rotina
da casa ou de que apenas dois visitantes era muito pouco para empolgar nosso
receptivo turístico… (Mas como não queremos focar nos aspectos negativos,
daremos sequência ao relato.)
Ainda
na bodega histórica fomos apresentados a um grande painel de fotos e figuras
que contavam a história da família do fundador e como a paixão pelo vinho foi
passando de geração a geração. Essa introdução nos surpreendeu e cremos que foi
a melhor contextualização histórica que recebemos em visitas deste tipo.
Idas e Vinhas
Logo
em seguida visitamos a sala de barricas e a adega (com milhares e milhares de
garrafas, incluindo alguns dos ícones). Todos os espaços estavam impecavelmente
organizados e, é claro, isso é um convite para muitas fotos (que não nos
furtamos a tirar).
Saímos
da edificação histórica e nos dirigimos à belíssima Bodega Icono Don Maximiano. Há um vídeo na
internet com uma sequência de fotos que cobre toda a fase de construção deste
imponente prédio.
Idas e Vinhas
A caminho da Bodega Icono, com a vista dos parreirais morro acima.
Neste
edifício se dá o processamento das uvas e a fermentação nos grandes tanques. Na
foto abaixo é possível identificar que há tanques de carvalho e de inox. Perguntamos
o porquê deste fato e a explicação dada é que os tanques de madeira fazem parte
do primeiro lote adquirido para a Bodega
Icono
e os tanques em aço, mais versáteis e de manuseio mais prático, foram
adquiridos posteriormente.
Idas e Vinhas
Quando
lá estivemos, a vendimia ainda não
havia começado e, por isso, a bodega estava praticamente inativa. Por este
motivo rapidamente fomos conduzidos à Bodega Histórica para a degustação de 3
vinhos.
Idas e Vinhas
Vista externa da Bodega Histórica
Na
ocasião, nos serviram os seguintes vinhos: Max Reserva Cabernet Sauvignon 2012, Aconcagua Costa Sauvignon Blanc 2014 e Don Maximiano 2011. Curiosamente o que mais nos agradou foi o
vinho da série Aconcagua Costa – pedimos, inclusive, para provar o Syrah da mesma linha para confirmar
nossa impressão mas a guia informou não ser possível atender nossa solicitação pois
não havia garrafas abertas deste rótulo… achamos estranho (principalmente
porque eles possuem o serviço de degustação por taça) mas consideramos que
seria melhor não confrontar. Resolvemos comprar uma garrafa para experimentar
no Brasil – sem dúvida esta foi uma excelente decisão porque o vinho, um 2012,
estava ótimo. Obs.: descobrimos depois que o casal Follador também provou (e aprovou) este rótulo (e da mesma safra).
Idas e Vinhas
Achamos
um pouco desconfortável o local escolhido para a realização da degustação – foi
utilizado um balcão no salão principal. Ficamos sentados em banquetas e sem
qualquer privacidade – me parece que esta proposta é mais adequada para uma
degustação por taça, mas não é muito cortês com quem buscou uma degustação top em uma viña de excelência. Ainda assim saímos de lá felizes com a
experiência que tínhamos acabado de viver principalmente porque o lugar é lindo
e a visita foi privativa.
É “mais passeio” ou é
“mais vinho”?
É mais
vinho. Talvez possa ser “mais passeio” para algum outro visitante, mas nossa
visita foi permeada de falhas por parte do receptivo turístico. Não fomos
sequer convidados a conhecer os outros vinhos disponíveis para a compra e a
todo instante sentíamos que nossa visita não era muito importante para a casa.
Os vinhos, embora não tenham agradado em cheio nosso paladar, possuem sem
dúvida uma identidade própria – é fácil identificar que são complexos e
refinados. Não degustamos os outros ícones, mas para quem provou um Don Maximiamo
já está de bom tamanho.
Em breve
faremos o relato da outra viña visitada neste mesmo dia.
¡Salud!
Enocuriosos
*fotografias
de Dagô e Simone.
Gostou
dessa postagem? Nossa segunda viagem ao Chile começou
aqui.

Ana Cristina e Alexandre Follador também visitaram a Errazuriz! Veja aqui.

Enocuriosos… Viñas de Chile – Cavas del Valle

Idas e Vinhas

Como enocuriosos que somos, ficamos com certo gosto de “quero mais”
assim que retornamos de nossa primeira viagem ao Chile. Havíamos visitado, naquela ocasião, apenas 6 vinícolas, mas
com esta pequena amostra foi possível perceber que este simpático país poderia
contribuir (e muito) para nossas aventuras enológicas e ratificar o gosto por
um bom vinho e por uma bela visita guiada. Pois bem, não havia por que esperar
melhor oportunidade e, transcorridos apenas 6 meses, retornávamos aos encantos
chilenos.

É
possível que vocês se perguntem: “– ora, os Enocuriosos não começaram há pouco
tempo nova série sobre vinícolas italianas?” Sim, é vero. O ponto é que viajamos ao Chile pela segunda vez antes de
nossa ida (a vinhas) ao velho mundo. Aí pensamos que poderia ser interessante
embaralhar tudo e postar um pouco de cada e intercalar as postagens para
retratar os dois mundos sem se preocupar em fechar uma porta antes de abrir a
outra.
Voltamos
ao Chile em março de 2015 para, em 9 dias, conhecer um pouco mais do país e das
regiões produtoras. Escolhemos como início o Valle del Elqui, localizado a aproximadamente
470 quilômetros ao norte de Santiago. Trata-se de uma região semiárida e mais
conhecida pela Ruta de las Estrellas – roteiro turístico com diversos observatórios
astronômicos e um céu de cair o queixo. (Esta região tornou-se célebre em função
da pouca umidade do ar – o que diminui a distorção das imagens vistas através
das lentes de aumento macroscópicas – e também porque suas montanhas são boas
barreiras à iluminação artificial proveniente das cidades – que contribui para
atrapalhar a observação de corpos celestes).
Descobrimos
que o Vale do Elqui é também conhecido pela produção de pisco – um tipo de bebida destilada feita a partir da uva (vários
subtipos da moscatel e algumas outras
espécies tal como Pedro Jiménez e Torontel – isso mesmo, a Torrontés, da busca incessante do Alexandre!).
O vale é coberto de parreirais em um volume espantoso para um território quase
desértico. O segredo é a existência de grandes represas que ajudam a reter a
água de alguns rios e afluentes e assim prover todo o recurso hídrico para sustentar
o desenvolvimento da região. Visitamos o Vale do Elqui no verão – que é o
período sem chuvas por lá e, por isso, havia algumas restrições quanto ao consumo de
água pois as represas estavam com o estoque muito abaixo do limite máximo (como
pode ser observado abaixo).
Idas e Vinhas
Duas paisagens: mar de parreiras e reservatório em baixa.
O vale
é conhecido pela qualidade de sua bebida típica (o pisco) e também pelos
passeios às pisquerias. Como não somos “piscuriosos”, começamos a buscar por viñas
na região, pois já havíamos escutado algo sobre a existência de vinhedos de
altitude nesta parte do Chile. Realmente não há muitas bodegas a visitar embora
haja produção de vitis vinifera para
alguns famosos produtores de vinhos da região central do país. Encontramos 3
vinícolas com bodegas instaladas dentro do vale e apenas uma delas aceitava
visitantes no período de nossa viagem (estávamos em plena vendimia). Esta pequena bodega é nossa estrela de hoje: a Cavas del Valle.
Idas e Vinhas
A Cavas
del Valle
se encontra a uma distância considerável de Santiago e por
isso optamos por voar até a aprazível cidade de La Serena e de lá alugamos um carro – já que não há transporte
público tão frequente assim para o Vale. São apenas 90 quilômetros a partir do aeroporto seguindo a Ruta 41 até Rivadavia
e depois a Ruta 485 até o destino final. A viña
fica entre os distritos de Paihuano e Monte Grande.
Para
visitar esta bodega não é necessário fazer reserva – a vinícola recebe
visitantes em todos os dias da semana e apenas para grupos a partir de
10 pessoas é aconselhável um contato prévio. Não há cobrança de ingresso, pois
a visita é bastante simples, tal como a vinícola. O foco é a produção do vinho
e a manutenção de um estilo sóbrio, simples e natural. Aliás, é importante
destacar que toda a produção é de vinhos orgânicos.
Como não há esquema de agendamento, basta que o
visitante se apresente para que tenha início o passeio. Os vinhedos não são visitados
e tudo se resume a conhecer os diversos ambientes de um grande barracão que
comporta o espaço para degustações, a loja, a sala de processamento do vinho
(com todo o maquinário) e a sala de barricas. Como a produção é muito pequena,
o engarrafamento não é automatizado e a rotulagem e o tamponamento são totalmente
manuais – não deixe de ver as fotos do processo produtivo no sítio virtual da viña. Em nossa visita não tivemos a
sorte de ver todo o processamento, pois a colheita ainda não havia ocorrido.
Idas e Vinhas
Sala de produção
Idas e Vinhas
O vinho a descansar

Ao
fim da visita há uma descompromissada degustação em um ambiente externo que
permite a visão para as lindíssimas montanhas que guarnecem o vale.

Idas e Vinhas
É
importante destacar que a simplicidade da degustação não está à altura da
qualidade da produção: foram servidos quatro vinhos – um varietal de Moscatel
Rosada – Rosa Pastilla, um moscatel de colheita tardia – Cosecha Otoñal Moscatel e dois tintos – o Syrah Reserva e o Syrah Gran Reserva. Com
exceção do “late harvest” os vinhos mostraram uma identidade própria, diferente
do padrão chileno. Gostaríamos de ter provado também o Alto del Silencio mas como
a produção deste ícone é limitadíssima ele não faz parte das degustações. Assim
sendo, antes de ir embora, fizemos a tradicional visita à “lojinha” e compramos
nosso exemplar do Alto del Silencio 2011 por um preço bastante acessível – é
claro que não aguardamos sequer um mês para desarrolhar e nos deliciar com o
ícone da casa.
É “mais passeio” ou é
“mais vinho”?
É mais vinho.
A visita, embora simpática e simples, não chega a ser um passeio turístico (e
nem pretende sê-lo). Ainda assim, consideramos um bom ponto de parada no Vale do
Elqui, pois lá é possível fugir um pouco do script
das visitas guiadas e até emendar uma conversa com o pessoal da bodega –
afinal, o tempo transcorre de forma diferente quando não há horário marcado e
duração do tour pré-determinada. Caso
não tenha muito tempo para conversa, visite mesmo assim, pois o ponto forte é,
sem dúvida, o vinho. Toda a produção é orgânica, com excelentes exemplares de
Syrah e em tiragem bastante reduzida, e não é possível encontra-los em outro
lugar – não há importadoras ou distribuidoras credenciadas justamente em função
da baixa produção.
Nossa
viagem ao Chile estava apenas começando e já tínhamos 3 garrafas na bagagem!
¡Salud!
Enocuriosos
*fotografias de Dagô e Simone.